quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A VOZ DO TEMPO
Num leito sensual de águas vivas
Um corpo virginal
vestido de azul sidério
Detem-se adormecido
Num poderoso manto de mistério!
Porém, leito e corpo
Arrancam às bocas lendas tenebrosas,
Suscitam rosários de presságios e medos!
As suas formas,
Que se espreguiçam voluptuosas
Entre lodos, areias e rochedos,
Num caos de estranho esquecimento,
E os caminhos,
Que o tempo tem ciosamente fechados,
Arrancam às bocas lendas tenebrosas,
Suscitam rosários de presságios e medos!
É ela uma formosa Princesa,
Entre laços de bruma, cativa,
Que esconde um tesoiro vasto e profundo,
Um vaso de néctar rutilante
Em lugar secreto e distante do Mundo!
Porém, seu corpo, leito e vaso ocultos
Arrancam ás bocas lendas tenebrosas,
Suscitam rosários de presságios e medos!
(in "Os Atlantes", Lisboa, 1961)